Eram freqüentes as viagens do Moacir caminhoneiro a São Paulo, de Cachoeiro, transportando mármores, como era rotina sua mulher ligar àquelas paranças, tipo controle remoto. Assim, contatou ela, desta última vez, a marmoraria destinatária, sem, entretanto, localizar nosso protagonista que já pisara por ali e dirigira-se à habitual transportadora paulistana a recarregar e retornar; e foi de lá que recebeu triste notícia: “Não, ele não passou por aqui não”; então, flutuando em preocupação e imergindo no desespero, telefonou várias vezes no dia seguinte, e no outro, e no outro, à transportadora, à marmoraria e a outros possíveis lugares alternadamente, à espera de fruir informação prazenteira que em nenhuma das inumeráveis tentativas obteve. Desta forma, seu cérebro se contorceu, sua mente se obnubilou.
Este Moacir pitoresco, conhecido por assíduo quebrador de caminhões, dizia que era urucubaca, mas era "navalha" mesmo. Empregado fiel e bem disposto tivera a confiança de patrões até conquistar seu caminhão. Antigamente, só tomava cachaça; se bebia, virava macho, e aprontava; certa vez, em 1988, nas pedreiras norte-capixabanas, numa quadrilha de São João, mandara anunciar nos alto-falantes que seria ele o famigerado “Pé-de-boi” em pessoa, o lendário dançarino de pés de boi, assombrador dos forrós da época, e, a fim de demonstrar esta afirmação, atravessaria a fogueira descalço naquela mesma noite. E Fê-lo, uma primeira vez bem-sucedidamente; repetiu a temerosa travessia pela segunda, terceira, quarta e talvez quinta vez causando comoção aos presentes e obtendo seguidores, aventureiros quanto ele; aquilo virou festa; dia seguinte, seus pés abrasados, para remediá-los aplicou-lhes enxofre, ingrediente do fabrico da pólvora caseira na pedreira, que lhe valeu, de resultado, a carne exposta viva nos seus pés de burro. Exagerado, excedeu, em outra ocasião, a resistência de um Mercedez trucado com dois blocos de granito que lhe estouraram todos os pneus. Fez o mesmo com uma égua que, coitada, tombou despejando a densa carga ao chão. Teimoso e ingênuo, cultivava bigode limpa-trilhos que o penteava com os dedos, sinal de reinação. Inventava palavras, expressões: Tremedá era pântano; zoiúdo, sapo; bicho feio, situação difícil e a qualquer moça chamava-a de Bebel... Eram tantas e tais as façanhas do nosso amigo que, cientes disso, enciumariam-se o engenhoso fidalgo Dom Quixote De La Mancha e Sancho Pança, seu fiel escudeiro, ambos relegados por um único e valoroso cavaleiro.
Este ser insólito é o que era a causa do tumulto e preito dos amigos enquanto confortavam iminente viúva e um caminhão azul na rua surgia e seu motorista inquiria do acontecido ali, na sua casa.
Gílson Calegári Filho
03/03/2008
Conto: A Última do Moacir.
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